Faculdade Mario Schenberg

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Acupuntura: Quando a medicina tradicional chinesa conversa com a ciência ocidental.

Quem se dedica a estudar acupuntura sabe muito bem que esta modalidade de tratamento pode ser ao mesmo tempo fascinante e frustrante.

Na minha opinião isso acontece pelo choque de culturas. De um lado temos a ciência ocidental, extremamente metódica com sua necessidade de validar a eficácia dos tratamentos por meio de ensaios clínicos e cálculos estatísticos.
De outro lado temos uma modalidade terapêutica baseada em preceitos filosóficos (Yin e Yang), que busca harmonizar a energia Qi que circula pelos meridianos de energia. Para o acupunturista, a alimentação, o padrão de sono e até mesmo a cor da língua do paciente são fatores que vão influenciar a escolha dos pontos de acupuntura, a ordem do puncionamento e também do tempo em que as agulhas permanecerão no corpo. A acupuntura é bastante influenciada pelo Taoismo. A influência desta filosofia torna os atendimentos altamente individualizados, sendo praticamente impossível criar protocolos fixos. Não é concebível, por exemplo, tratar uma dor de cabeça parietal utilizando uma combinação padronizada de pontos que seja ideal para todos os indivíduos.

Esta preocupação com a individualidade dificulta a elaboração de ensaios clínicos. No entanto, alguns estudos comprovam a efetividade da acupuntura em algumas condições específicas, com destaque especial para o controle da dor.  

Exames de imagem ainda não conseguiram provar a existência do Qi, e nem dos meridianos de energia, mas nos últimos 10 anos, pesquisas realizadas com Ressonância Magnética Funcional, embora controversas, apontam para alguns resultados realmente interessantes.

Acupuntura e Ressonância Magnética Funcional

Em 1999, Wu e colaboradores  foram os primeiros a mostrar que a acupuntura em pontos de acupuntura F4 e E36 de pessoas saudáveis ​​resultou na ativação do hipotálamo e do nucleus accumbens e desativação da parte rostral do córtex cingulado anterior, da amígdala e do hipocampo.

Em um artigo publicado em 2010 por Cho e colaboradores entitulado "fMRI Study of Effect on Brain Activity According to Stimulation Method at LI11, ST36: Painful Pressure and Acupuncture Stimulation of Same Acupoints”, os autores usaram a Ressonância Magnética Funcional para visualizar quais áreas do cérebro são ativadas quando os pontos E36 e F11 são estimulados. Em outras palavras: Eles pressionaram e puncionaram os pontos de acupuntura 36 do estômago e 11 do fígado e ligavam o aparelho de ressonância pra ver o que acontecia no cérebro das pessoas. Os autores afirmaram que a estimulação destes pontos de acupuntura corresponderam a ativação do giro parahipocampal, e de áreas do tálamo e cerebelo.

Estes são apenas dois exemplos de artigos, entre vários outros que investigaram a correlação entre agulhamento e áreas cerebrais.

E o que podemos aprender com isso?

Primeiro: Que mesmo que nunca se consiga comprovar a existência do Qi, podemos ao menos afirmar que o agulhamento dos pontos de acupuntura é capaz de estimular o Sistema Nervoso Central.

Segundo: Podemos dizer que existe uma via neural entre pontos de acupuntura e estruturas cerebrais ligadas ao sistema límbico. Vale a pena frisar que foi demonstrado que o agulhamento de pontos da perna resultam na ativação do hipotálamo, o qual é uma região do encéfalo que produz endorfinas (substâncias que dão barato e reduzem a dor). Ou seja: a acupuntura talvez seja capaz de ativar vias descendentes analgésicas.
Terceiro: Sabemos que o stress desencadeia uma série de respostas hormonais que mantém o organismo em um constante estado de alerta e que isso aos poucos pode causar círculos viciosos envolvendo dores, hipertensão arterial, alterações do sono entre outros problemas de saúde. 

Partindo das premissas que talvez a acupuntura seja realmente capaz de estimular áreas do cérebro relacionadas à sensação de bem estar e que talvez funcione como um “antidepressivo natural”, Podemos supor que embora não comprovado é razoável imaginar que a acupuntura obtém respostas terapêuticas por ser capaz de quebrar alguns destes círculos viciosos.




 FONTES: http://ibru.vghtpe.gov.tw/files/Neuroradiology%20212-133.pdf http://www.encognitive.com/files/fMRI%20Study%20of%20Effect%20on%20Brain%20Activity%20According%20to%20Stimulation%20Method%20at%20LI11,%20ST36:%20Painful%20Pressure%20and%20Acupuncture.pdf

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